Certa vez li que a passividade é um fracasso sutil: não nos manifestamos e, com isso, deixamos o mal conseguir o que ele quer.

Mas o que é o mal? E o que é o bem?

Ambos são formas que a consciência pode escolher assumir em um determinado momento. O que quer dizer que o potencial para ambos existe na consciência de todos nós.

À medida que crescemos, nossa consciência – e nossas escolhas – vão sendo moldadas pelas nossas experiências, pelas impressões que vamos guardando em nossas mentes por conta do que experimentamos com nossos cinco sentidos, pelos condicionamentos que vamos construindo.

Deepak Chopra lista algumas dessas forças externas que moldam um bebê recém-nascido:

* a orientação dos pais ou a ausência dela

* a presença do amor ou a ausência dele

* o contexto da família como um todo

* a pressão dos colegas na escola e a pressão social a vida inteira

* as tendências e as reações pessoais

* crenças inculcadas e ensinamentos religiosos

Diferentes níveis de consciência resultam em diferentes definições de bem e de mal. O que corresponderia a dizer que o mal depende do nível de consciência da pessoa.

Tanto o bem quanto o mal estão presentes em todos nós – ainda que o mal esteja presente como uma sombra, algo que fingimos que não existe, ou que varremos pra baixo do tapete.

O que define quem vai agir de forma boa ou má são justamente as nossas escolhas. Mas é importante notar que, ainda que você tenha crescido sob forças externas que moldaram suas escolhas na direção do bem, o mal também vive em você, em algum lugar.

Algumas das condições que liberam as energias da sombra, segundo Deepak Chopra, são:

* remoção do senso de responsabilidade

* anonimato

* um ambiente desumanizador

* exemplos de mau comportamento dos colegas

* ser um observador passivo

* níveis rígidos de poder

* preponderância do caos e da desordem

* ausência de significado

* permissão implícita para prejudicar os outros

* mentalidade de “nós” versus “eles”

* isolamento

* não precisar prestar contas

Analisando essa lista, é fácil identificar as condições que levam meninos crescidos com pouca ou nenhuma estrutura familiar, sem amor, em comunidades pobres e em condições desumanas e caóticas, sob jugo de ações policiais truculentas e sendo vistos como “os outros” ou a escória por toda a sociedade, a fazerem escolhas pouco conscientes na direção do mal.

Na presença dessas condições ou das circunstâncias adequadas, a sombra de qualquer um, inclusive eu e você, se exterioriza. Há vários exemplos e estudos confirmando isso. Na década de 70, alunos da Universidade de Stanford foram divididos em dois grupos e interpretaram os papéis de guardas/carcereiros e prisioneiros, em um cenário.

A experiência deveria durar duas semanas, mas depois de apenas seis dias os professores precisaram interrompê-la: os rapazes que interpretavam os guardas estavam praticando atos sádicos e descontrolados – incluindo a tortura física – contra os colegas.

Guardas americanos reviveram essa situação em 2004 praticando atos abomináveis na prisão do Iraque. E, em menor escala, o mesmo tipo de sombra volta e meia é identificado em ação em hospitais, onde algumas das forças acima também estão presentes.

O grande desafio para quem está trilhando um caminho de espiritualidade – e creio que para qualquer pessoa – é aplicar a compaixão e amor nas situações difíceis. Normalmente, as situações de violência fazem o amor se contrair, se transformando em medo e ódio.

Diante do mal, você e eu nos sentimos impotentes, porque não podemos resolver esse problema em grande escala. Essa sensação de impotência gera em muitos a sensação de que o bem não vai vencer no final. Mas, para lutar contra o mal, precisamos olhar pra ele com interesse, e não horror.

Quando a sociedade começa a acreditar que todos os problemas estão sendo causados por “eles” (versus “nós”), os “intrusos”, aí sim o mal começa a se propagar com ainda maior velocidade. Porque, mesmo na ponta em que deveriam estar as pessoas mais “conscientes”, e portanto mais inclinadas a tomarem decisões na direção do bem, começam a se multiplicar as forças que moldam as decisões que pendem para o mal.

Quando nos deixamos dominar pelo medo, ou horror, a nossa capacidade de escolher com mais consciência fica prejudicada.

E quando o mal começa a acontecer em massa, alguns optam por resistir, enquanto outros optam por se juntar ao tema coletivo e representá-lo.

É justamente assim que pessoas cujas escolhas talvez tenham em geral pendido mais para o lado do bem começam a, dominadas pelo medo, horror, e pela sensação de separação, a participar nos elementos do mal.

São essas pessoas que espancam e prendem um menor nu com uma trava de bicicleta a um poste.

E mesmo que você não seja uma delas – e provavelmente não é –, você também é responsável pela sua participação nos elementos do mal, ainda que não saia por aí prendendo menores a postes com travas de bicicleta. Porque, enquanto você acreditar nos elementos do mal, você mantém ativa a sua participação.

Da mesma forma que o menor, e dos que o aprisionam ou espancam, você também está fazendo escolhas sob a influência de forças externas que mencionei, ao não se sentir responsável, ao se aproveitar do anonimato na internet, ao seguir a onda dos outros sem muita reflexão própria, e ao ver a situação como uma guerra de “nós” versus “eles”.

E lembre-se: você pode não prender o menor no poste, mas se você acredita na raiva “inofensiva” (na forma dos seus comentários de apoio ou da ridicularização de quem defende os direitos de um ser humano que cresceu sob forças que praticamente o impedem de fazer escolhas conscientes na direção do bem) e no julgamento dos outros – no caso, do menor (e de todos os outros que ele representa), você está, sim, participando nos elementos do mal.