O que o minimalismo pode fazer por você?

Mudar um hábito pode ser muito difícil. Mudar um estilo de vida, mais ainda. Tem gente que, quando faz dieta, pendura na porta da geladeira uma foto de uma atriz. E é mesmo mais fácil a gente ter disciplina e força de vontade quando a gente tem uma visão melhor de quais são as possíveis vantagens pro nosso sacrifício.

Por isso, resolvi detalhar um pouco mais, na listinha abaixo, alguns dos benefícios mais imediatos do minimalismo, sobre os quais eu já falei rapidamente em outros textos:

♥ Liberdade – Fiquei por anos escravizada num mundo ao qual eu não pertencia porque, a cada vez que eu considerava sair, eu pensava: “mas eu preciso do dinheiro pra comprar/manter as minhas coisas”. Até o dia em que eu me dei conta de que estava abrindo mão da minha liberdade e trabalhando numa coisa que não me fazia feliz pra poder comprar ou manter coisas de que eu não precisava ter. Hoje, quanto mais feliz eu sou com menos, mais liberdade eu tenho pra viver a vida que eu sempre quis, fazendo o que eu amo e sendo extremamente feliz.

♥ Tempo – Quanto menos coisa você tem, menos você precisa dedicar o seu tempo a limpar, organizar, fazer manutenção, cuidar de coisas. Adivinha o que você pode fazer com todo o tempo livre que resulta do minimalismo? Coisas que você realmente ame e que te façam verdadeiramente feliz.

♥ Economia – Quando a gente fala em economia como conseqüência do minimalismo, as pessoas imediatamente fazem o raciocínio lógico de “claro, se você não compra uma coisa, você economiza o dinheiro”. Mas é mais que isso. Porque além de comprar uma coisa, você paga pelo espaço que essa coisa ocupa na sua casa, você paga manutenção, limpeza, etc. Pense nos custos, por exemplo, de um carro e você claramente verá que eles não se limitam ao preço do carro em si.

♥ Auto-conhecimento – a partir do momento em que você deixa de se definir pelo que você tem, você passa a buscar entender quem você é. E, olhando pra trás, pra coisas que você tinha e que imagem você estava querendo que elas passassem pro mundo, você consegue ter uma boa ideia de muita coisa sobre você mesmo. Às vezes, não é fácil e nem bonito o que você vê, mas é o primeiro passo pra você assumir as rédeas de você mesmo e ser uma pessoa melhor.

♥ Relacionamentos mais verdadeiros – quando você não se define mais pelo que você tem, mas sim pelo que você é, você começa a ficar extremamente incomodado com as pessoas em volta que te definem ou te julgam pelo que você tem. Você começa a enxergar a superficialidade das suas relações com essas pessoas e começa a buscar relacionamentos mais profundos e verdadeiros. Alguns amigos vão embora nesse processo (eles podem até continuar lá, mas você passa a vê-los com outros olhos) e outros novos surgem.

Primeiros passos para o minimalismo

No outro dia eu citei o Leo Babauta, um dos blogueiros minimalitas mais conhecidos lá fora, que diz que pra virar minimalista é super simples, basta tomar a decisão.

E é verdade. Mas, depois da decisão tomada, como resistir ao impulso de novas compras?

Quando a gente está há muito tempo na espiral do consumo, pulando de um desejo pro próximo, muitas vezes até mesmo gastando mais do que pode e se endividando e depois morrendo de remorso e culpa, é difícil dar os primeiros passos rumo ao minimalismo.

Aí vão algumas dicas:

♥ Elimine a tentação – Assim que eu percebi o quanto o consumismo estava me fazendo mal, o quanto eu continuava infeliz independente de realizar os mais loucos “sonhos de consumo”, comecei a prestar atenção em quais eram os gatilhos pros meus impulsos, as minhas vontades, os meus desejos. E, naturalmente, me dei conta de que as revistas (em papel ou virtuais, na forma de sites ou blogs) eram grandes vilãs.

Parece maquiavélico o que vou dizer – e é! – mas toda a indústria do consumo nos empurra desejos goela abaixo com a premissa (falsa, óbvio!) de que somos inadequados. Se não temos a roupa x estamos mal vestidos, se não temos o carro y não somos bem-sucedidos profissionalmente, e por aí vai.

Eu lia revistas de moda e, invariavelmente, ao virar a última página a minha sensação era de que o meu armário não tinha nada que prestasse, que eu estava praticamente nua, que eu precisava de mais roupas e sapatos pra estar bem vestida. Eu lia revistas de decoração e, de uma hora pra outra, achava a minha casa um lixo, os meus móveis horrorosos, achava que precisava de mais plantas, de mais objetos de decoração, de cores diferentes nas paredes, de uma casa maior, de um ofurô.

De um dia pro outro, tomei a decisão de não ler mais revistas. Nas primeiras semanas, fiquei me sentindo órfã (eu amava revistas, levava pra praia, gostava de ler em casa debaixo das cobertas, gostava de ter na bolsa pra ler no táxi). Mas, ao mesmo tempo, percebi imediatamente a minha insatisfação com as minhas coisas, a minha sensação de inadequação e o meu desejo por novas coisas diminuir drasticamente.

♥ Arrume outro hobby – A verdade às vezes dói, então se preparem para esta revelação: ir ao shopping não é hobby. Não mesmo. Ir ao shopping é – assim como ler revistas – uma outra forma de ser bombardeado pela mensagem de que você é inadequado.

Se quando você está entediado em casa no fim de semana você resolve dar um passeio no shopping, desculpe, você está precisando de um hobby, ou de redescobrir a sua cidade, passear na praia, nos parques, nos museus (todas aquelas coisas, aliás, que você faz quando está viajando e conhecendo outra cidade que não a sua!). Vá curtir a vida e deixe o shopping pra ir só quando estiver precisando de um item específico, de uma loja específica. Entre, compre e saia.

♥ Calcule quantas horas, dias ou meses você precisa trabalhar pra pagar aquele item. Vale mesmo à pena trabalhar dois dias inteiros por aquele sapato que você vai usar só uma vez na vida?

♥ Vá dormir! Não compre por impulso, durma uns dias com a idéia na cabeça pra ver se ela continua lá. Comigo, acontece de em 99% dos casos perceber que é algo de que eu não preciso ou que não vale à pena, ou mesmo esquecer completamente da ideia.

Eu corro porque…

…a corrida é o meu momento de estar comigo mesma, com meu corpo e minha mente, de sentir que está tudo num só ritmo: minha respiração, minhas pegadas, meu coração, meus pensamentos. De me sentir criança de novo, brincando de pega, de pique, de polícia-e-ladrão. De ouvir minhas músicas preferidas sem ninguém interromper. De testar os limites do meu corpo, da minha mente, os meus limites.

…porque eu posso, porque é divertido, porque é saudável, porque me faz buscar o meu limite em tudo mais que eu faço, porque me ensina sobre mim mesma, porque é simples mas ao mesmo tempo tão completo, porque me ajuda a meditar, porque a corrida me prova que o impossível não existe.

Não é você, sou eu

“Como você vai pagar as suas contas?”
“Como o pobrezinho do Davi vai viver sem Discovery Kids?”
“O que? Você vai se mudar pra um apartamento menor?”
“Acho que você está louca”.

Desde que comecei a escrever esse blog e falar das mudanças na minha vida, recebi muitas mensagens de incentivo tanto de amigos quanto de desconhecidos, mas também ouvi muitas vezes os comentários acima ou outros parecidos. Que, muitas vezes, são feitos com um quê de agressividade, até.

O que algumas pessoas precisam entender é que, quando eu mudo ou quero mudar alguma coisa na minha vida, eu não estou necessariamente criticando ou questionando esta mesma coisa na vida de ninguém. A idéia de escrever sobre as minhas mudanças não é forçar ninguém a fazer as mesmas mudanças, mas sim inspirar e incentivar as pessoas a fazerem qualquer mudança que acharem importante ou necessária.

Na história que publiquei ontem, uma leitora resolveu tomar as rédeas da sua saúde e do seu corpo e começou uma dieta e exercícios para perder peso, depois de bater os 135kg. Embora eu adore comer saudável e fazer exercícios – e fale sobre isso aqui – eu nasci, cresci e continuo magricela, então qualquer mudança de estilo de vida que tenha a ver com o meu corpo, apesar de bem-vinda se significar mais saúde e bem estar, não está na minha lista de prioridades. Porque eu já me sinto bem com o meu corpo, tanto em termos de saúde quanto esteticamente.

Ou seja, eu mudo o que eu preciso mudar daqui e vocês mudam o que precisam mudar daí pra todo mundo ser mais feliz. Se tiver coincidências, ótimo, vamos trocar idéias e experiências. Se não, nos incentivamos mutuamente.

Mas, como bem disse o meu amigo Alex, as pessoas se sentem criticadas e se sentem questionadas no seu próprio estilo de vida. Imagino que se estivessem bem felizes e satisfeitas com as suas próprias escolhas, não se incomodariam mesmo que, de fato, estivessem sendo criticadas ou questionadas, né não?

(eu, por exemplo, não estou dando a mínima pras críticas)

Então eu vou usar uma expressão que eu vi no outro dia no The Minimalists e adorei: “Não é você, sou eu”.

Se eu quero doar as minhas coisas e viver com menos, é porque está ME incomodando ter tanta coisa, tanto acúmulo desnecessário, gastar tanta energia cuidando e mantendo essas coisas de que eu no fundo não preciso. Não quer dizer que eu acho que ninguém deva se desfazer de nada…não é você, sou eu.

Se eu quero fazer Arte (escrever, tocar piano, fazer música, pintar…) é porque isso faz bem pra mim, faz parte da minha vida desde que eu tinha 3 anos de idade, está no meu DNA, me faz feliz. Pode ser que o que te faz feliz seja pular de pára-quedas (que eu, por exemplo, nunca faria porque tenho medo de altura), ou ter 5 cachorros, ou ir pra uma praia de nudismo. Ninguém é obrigado a ser artista.

Se eu gosto de comer legumes, verduras, frutas, pratos coloridos e balanceados (e olha, eu também adoro uma pizza de vez em quando ou um baconzitos vendo filme), não quer dizer que estou criticando você que come todo dia na churrascaria rodízio ou esquenta uma lasagna congelada no microondas depois do trabalho.

E por fim – o mais polêmico, pelo visto – se eu escolhi não ter mais carro e andar pela cidade de bike, metrô, ônibus, táxi e a pé, não significa que eu ache que todo mundo deve fazer isso. Para algumas pessoas, não é nem viável.

O que eu quero, e quero mesmo, é fazer você parar pra pensar, se perguntar, se questionar, e descobrir o que você pode mudar na sua própria vida em busca de mais qualidade, pra ser mais feliz. É só plantar a semente da dúvida e convidar à reflexão.

De resto, não é você, sou eu.

As crianças precisam de mais tédio

Desde que comecei a falar e escrever sobre minimalismo e desapego, várias pessoas me perguntaram como implementar essa filosofia de vida se você tem filhos. Acho que a questão da simplicidade, quando vista sob o foco dos filhos e da infância, é muito maior do que somente jogar brinquedos fora.

As pessoas hoje querem que seus filhos tenham sucesso e, como ninguém sabe muito bem o que é sucesso – porque ninguém para e se questiona -, colocam os filhos pra fazer mil e uma atividades: inglês, espanhol, natação, balé, jazz, capoeira, judô. Nas (poucas) horas vagas, marcam playdates com os amigos.

As crianças têm mais atividades do que conseguem dar conta, mais brinquedos do que conseguem administrar, mais livros do que conseguem ler, mais desenhos pra assistir na TV do que conseguem acompanhar.

Quando lembro da minha infância, sempre me divirto com lembranças das minhas muitas brincadeiras inventadas, da minha incontrolável criatividade. Eu fazia desenhos e saía vendendo pros vizinhos (e voltava pra casa cheia de dinheiro, para espanto da minha mãe), criava peças de teatro que encenava com os amigos do prédio e vendia ingressos para as crianças do bairro, escrevia livros, desenhava as capas, construía cabanas.

Tudo isso nascia do tédio. Do nada-pra-fazer. De sentar na escada da casa dos meus avós com um copo cheio de água com detergente e um canudo e, depois de uma hora, me cansar de fazer bolha de sabão.

Criar minhas próprias histórias, minhas brincadeiras, meus livros, minhas peças, tudo isso era bom pra minha auto-estima, eu me sentia super poderosa, capaz de criar coisas do nada, de me entreter e entreter meus amigos.

A gente tem hoje a sensação de que as crianças já nascem mais espertas, sabendo mais, que crescem e se desenvolvem muito rápido, que viram adolescentes com 10 anos de idade, mas somos nós que estamos causando isso. Nós estamos matando a infância.

Estamos gerando adolescentes e jovens que não conseguem parar cinco minutos para pensar na resposta de uma questão ou problema: correm para o Google – vi isso em muitos estagiários meus.

Pior: sem poder explorar mundos desconhecidos, criar suas próprias brincadeiras e brinquedos, inventar suas próprias atividades, as crianças perdem também a oportunidade de descobrir quais são as suas verdadeiras paixões. E é daí que surgem os adolescentes que não sabem o que querem fazer da vida: de uma infância em que nunca se teve a chance e a permissão de se experimentar.

As crianças não precisam de mais atividades, nem mais brinquedos, nem mais livros, nem mais canais de tevê. As crianças precisam de tempo – não me canso de falar desse bem tão precioso e não-renovável. Tempo pra ficar sozinhas, tempo pra refletir sobre suas dúvidas, suas emoções, suas dificuldades, tempo pra encontrar suas próprias soluções. As crianças precisam de mais tédio. Depois de dez, vinte minutos de tédio, acredite, elas vão ser criativas, inovadoras, vão encontrar algo pra fazer.

E isso vai fazer delas “bem sucedidas” não só no sentido mais prático – e talvez besta – de passar no vestibular ou arrumar um emprego, mas num sentido mais profundo, de ter valores melhores, ser pessoas melhores, ser melhores pais e mães, ser mais felizes.

Minimalismo e algumas verdades sobre a sua aparência

Incentivada por um monte de blogs e livros sobre minimalismo, resolvi finalmente tomar coragem e contar quantas peças de roupa eu tenho. Não contei as que estavam pra lavar ou passar.

Pra vocês terem uma idéia, o guarda-roupas médio dos minimalistas por aí tem algo entre 33 e 50 peças de roupas. Mas isso é minimalista MESMO, gente que tem umas 70 a 100 coisas na vida, incluindo TUDO.

Eu não quero estabelecer pra mim uma meta impossível, e eu sei que eu ainda não sou capaz de viver com 30 peças de roupa ou 100 objetos ao todo. Quem sabe um dia.

No momento, eu tenho…247 peças de roupa e 35 pares de sapato. Fiquei chocada com a minha contagem. Cho-ca-da. Primeiro porque não tem 1 mês que eu tirei uma sacola de 100l de roupas e sapatos e doei. Segundo porque, só no ato da contagem, eu vi um monte de coisas que eu não uso há meses e SEI que nunca mais vou usar, simplesmente porque eu NÃO QUERO mais usar. Não cabe mais, não tem mais a ver comigo, não me veste bem, sei lá.

Então vou me propor ao seguinte projeto: vou reduzir meu guarda-roupas a 100 peças. Vou fazer isso de um jeito não-radical: vou escolher as minhas 100 peças preferidas e vou encaixotar as demais. Vou contando por aqui o que acontece. Quem quiser me acompanhar nesse Desafio de 100 Peças vai ser mais que bem-vindo. Quem preferir acompanhar de longe e me deixar de cobaia, fique à vontade também.

Àqueles que estão se perguntando por que diabos alguém em sua sã consciência faria algo assim, respondo: o minimalismo tem tudo a ver com o meu momento e com a minha vida melhor. Se você olhar a minha lista do que é sucesso pra mim, vai ver que não tem nenhum item que se relacione à posse de um objeto: eu quero ser, quero fazer, quero experimentar, quero viver.

Mudei minha vida e continuo mudando, e ter mais coisas do que eu preciso não faz mais sentido algum. É algo que me incomoda, me prende, me faz sentir mal, me identifica com uma parte da minha vida que foi embora.

Sobre me vestir com – muito – menos peças de roupa e sapatos, acho super a ver essa tradução livre minha do Be More With Less:

“Ninguém que realmente goste de você vai se lembrar de que sapato você estava usando na reunião do mês passado ou no casamento da sua prima. Se você tentar se manter atualizado com as últimas tendências e se comparar com anúncios das revistas e manequins nos shoppings, você vai ficar desconfortável, falido e frustrado. Em vez disso, se vista com menos itens que te permitam ser criativo, nobre e feliz. Sapatos que apertam seus pés e jeans que cortam a circulação das suas coxas não são agradáveis. Se vista para aproveitar o seu dia, não para que os outros possam aproveitar você. Você vai se lembrar do momento e eles vão se lembrar que foi ótimo passar tempo com você, e não de como você estava vestido.”

E aí, quem tem coragem de encarar um Desafio de 100 Peças?